Quando você não tem dinheiro, você sabe exatamente quanto vale a vida. Cinco dólares é uma cerveja e um maço de cigarros. Dez — dá para comprar carne. Quarenta — já é uma festa. E se restarem cento e vinte no cartão, você começa a se sentir quase rico e vai para casa a pé, para não gastar três dólares com táxi.
Vadim vivia assim. Tinha quarenta e dois anos. Arrendava um apartamento de um quarto por cima de uma loja aberta 24 horas, dormia num sofá afundado e negociava criptomoedas num portátil velho que aquecia como se alguém estivesse a fritar batatas lá dentro. De manhã, bebia café instantâneo; à noite, cerveja barata. Às vezes, as negociações corriam bem e ele podia dar-se ao luxo de comprar uma garrafa de uísque a sério. Nesses momentos, sentia-se uma pessoa. Nos outros dias, sentia-se Vadim.
Não se queixava. Não tinha a quem se queixar. A mulher fora-se embora seis anos antes. O filho vivia com ela e telefonava uma vez por semana. A mãe morrera. Os amigos foram desaparecendo aos poucos, como desaparecem todos os amigos quando não tens dinheiro para táxis, restaurantes e histórias interessantes. Só ficaram o mercado, o vizinho de baixo, que todas as noites ouvia o mesmo rock antigo, e a empregada da loja, que às vezes fiava cerveja a Vadim.
Depois veio o bitcoin.
Vadim comprou-o não porque acreditasse no futuro da humanidade. Aliás, não acreditava mesmo no futuro da humanidade. Simplesmente viu um bom nível, definiu um stop e foi dormir. De manhã, o preço estava mais alto. Uma semana depois, mais alto ainda. Depois houve uma subida tão grande que Vadim ficou sentado diante do ecrã, sem pestanejar, durante vários minutos. Tinha 186 mil dólares na conta.
A primeira coisa que fez foi ir àquela mesma loja.
— Cerveja? — perguntou a empregada.
— Não.
Ela olhou para ele.
— Uísque?
— Duas.
— Ganhaste?
— Ainda não.
— E depois?
Vadim olhou para o telemóvel.
— Agora simplesmente posso.
Um mês depois, tinha 640 mil.
Ao fim de três meses, tinha quase um milhão e meio.
Arrendou outro apartamento. Depois mais um. Ficou com o primeiro. Gostava de voltar lá de vez em quando e olhar para o velho sofá. Dizia a si próprio que aquilo lhe lembrava o passado. Na verdade, simplesmente gostava de sentir a diferença.
Comprou um relógio por vinte e oito mil dólares.
Quando o vendedor os pôs em cima da mesa, Vadim perguntou:
— Ao menos são precisos?
O vendedor sorriu.
— Muito precisos.
Vadim assentiu.
Sempre achara que o dinheiro devia servir para alguma coisa. Aquele relógio não servia para nada. Apenas lhe mostrava quanto tempo já tinha passado a tornar-se alguém que não precisava de saber o preço das coisas.
Ao princípio, a riqueza era agradável. Depois tornou-se habitual. Depois, obrigatória.
Deixou de andar de metro. Deixou de comprar comida normal. Deixou de ir aos bares onde antes o conheciam. Havia demasiadas pessoas que podiam perguntar-lhe como tinha ficado rico. Vadim não gostava dessa pergunta. Porque a resposta honesta soava estúpida:
«Tive sorte».
Começou a frequentar lugares onde os empregados de mesa não perguntavam o que fazias. Simplesmente traziam uma garrafa.
Um dia, o empregado de mesa pôs à sua frente uma conta de 1800 dólares.
Vadim olhou para ela.
— O que é isto?
— A sua conta.
— Pelo jantar?
— Sim.
Vadim riu.
— Tudo bem.
E pagou.
Mas depois passou a noite toda a pensar que, antes, com 1800 dólares, podia viver durante três meses.
O dinheiro não desapareceu. Desapareceu outra coisa.
Começou a negociar mais.
Quando tens mil dólares, tens medo de perder cem.
Quando tens um milhão, tens medo de perder cem mil.
Quando tens dez milhões, já não tens medo de perder dinheiro, mas de não ganhar ainda mais.
Vadim acordava durante a noite e verificava o mercado. Às sete da manhã já sabia o que tinha acontecido na Ásia. Às nove ligava ao corretor. Às dez começava a ter dores de cabeça. Ao meio-dia bebia. Ao fim do dia voltava a negociar.
Tornou-se mal-humorado.
Não por estar a perder.
Pelo contrário.
Ganhava dinheiro quase todos os meses.
Mas agora aquilo já não lhe chegava.
Um dia, o filho foi visitá-lo.
Tinha dezasseis anos.
Vadim reservou uma mesa num restaurante caro.
— Queres alguma coisa?
— Não sei.
— Escolhe.
O filho olhou para o menu.
— Pode ser pizza?
Vadim olhou para ele.
— Aqui não há pizza.
— Então não quero nada.
Vadim riu.
— Pede um bife.
— Não quero bife.
— Então o que queres?
O rapaz encolheu os ombros.
— Quero ir para casa.
Vadim não disse nada.
De repente, lembrou-se do antigo apartamento por cima da loja. Da cerveja barata. Do sofá estragado. Do filho ainda pequeno. Da mulher, que ainda não se tinha ido embora. E de si próprio, que naquela altura pensava que a pior coisa da vida era não ter dinheiro.
Olhou para o filho.
— Vamos.
Saíram do restaurante.
Junto ao carro, Vadim perguntou:
— Para onde?
— Para casa.
— Para a tua ou para a minha?
O filho olhou para ele.
— Mas tu tens casa?
Vadim não respondeu.
Depois disso, começou a vender as coisas.
Não porque precisasse de dinheiro.
Simplesmente já estava farto delas.
O relógio.
O carro.
O apartamento.
Os quadros.
Depois vendeu a maior parte das criptomoedas.
Ficou com cerca de duzentos mil dólares
Para a maioria das pessoas, uma fortuna.
Para Vadim, quase uma miséria.
Voltou para o antigo apartamento por cima da loja.
O vizinho de baixo ainda ouvia rock antigo.
A empregada da loja já era outra.
No sofá continuava a haver uma velha mancha que Vadim, um dia, tinha planeado tirar.
Sentou-se.
Abriu o frigorífico.
Havia cerveja.
A mais barata.
Pegou numa garrafa, abriu-a com os dentes e deu um gole.
Depois ligou o portátil.
O mercado estava aberto.
O bitcoin estava a subir.
Vadim olhava para as velas verdes.
Tinha 203 mil dólares na conta.
Podia comprar um carro.
Podia arrendar uma boa casa.
Podia voltar a ser o homem a quem o empregado de mesa traz uma garrafa de dois mil dólares.
Fechou o portátil.
Ficou sentado no escuro, a ouvir a música do vizinho.
Dez minutos depois, voltou a abri-lo.
O bitcoin subira mais três por cento.
Vadim olhou para o ecrã e, de repente, desatou a rir.
— Que cabra.
Abriu uma posição.
Depois abriu outra.
Depois usou alavancagem.
De manhã, só lhe restavam 17 mil dólares na conta.
Olhou para o número. Depois para a garrafa de cerveja. Depois para o velho sofá.
E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se em paz. Foi à loja. Comprou duas garrafas de cerveja e um maço de cigarros.
A empregada disse-lhe o total. Vadim tirou o dinheiro.
— Quer o troco?
Olhou para ela.
— Não.
Saiu para a rua.
Sentou-se num banco junto à loja. Acendeu um cigarro. O telemóvel vibrou.
O BTC começara a subir outra vez.
Vadim olhou para o ecrã. Depois guardou o telemóvel no bolso.
— Vai-te lixar — disse ele.
Ficou sentado no banco frio, a beber cerveja barata e a ver as pessoas a irem para casa com sacos da loja.
E, de repente, percebeu uma coisa simples.
Quando não tinha dinheiro, queria enriquecer.
Quando enriqueceu, quis ainda mais.
Quando perdeu quase tudo, pela primeira vez em muitos anos, não tinha nada que desejasse.
Acabou a cerveja. Olhou para a garrafa vazia e sorriu com ironia.
— Eu era normal quando era pobre!
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