A filha do meu amigo casou-se com um piloto.
Dez anos atrás, era uma verdadeira glória. O homem ganhava um milhão por ano e levava pra casa; sem dizer uma palavra, ela pediu demissão do trabalho e ficou só em casa, curtindo a vida de “primeira classe”. Bolsas de marca nas mãos, supermercados importados por onde passava, a escola internacional da filha — as mensalidades ela nem olhava e já pagava.
Só que a direção do vento muda de repente.
Com a aviação em crise, as rotas foram cortadas de forma drástica, e a escala de trabalho foi ficando cada vez mais vazia. O dinheiro que ele trazia pra casa foi, aos poucos, ficando visivelmente menor.
O estranho é que… a vida deles, como se tivessem travado o tempo, não foi afetada nem um centímetro. O armário de roupas da esposa continuava recebendo novidades conforme a estação mudava. O bife da mesa continuava no mesmo preço. E a mensalidade renovada daquela escola caríssima da filha também era paga com rapidez e sem complicação.
Todo mundo ao redor achava isso um milagre: como essa vida conseguia segurar?
Até que, recentemente, o meu amigo bebeu e finalmente falou a verdade. Os pais dos dois — gente já aposentada, mas com aposentadorias boas — quando perceberam que o casalzinho estava com a renda apertada, não fizeram cerimônia: começaram a fazer, em silêncio, uma “injeção de sangue”.
De um lado, estavam os avisos de transferência do pai e da mãe. Do outro, os sogros entregavam os cartões.
Quatro idosos, apesar de tudo, não deixaram que essa “dignidade” de salário milionário desabasse sobre esse casal.
Na verdade, alguns anos de tranquilidade da vida alheia não passam de uma geração anterior avançando com o próprio peso por eles.
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