Desde o surgimento do Bitcoin, milhares de criptomoedas foram criadas prometendo transações mais rápidas, taxas menores, maior privacidade ou funcionalidades mais avançadas. Algumas chegaram a alcançar valores de mercado bilionários, mas nenhuma conseguiu retirar do Bitcoin a posição de principal referência monetária do setor. Para Saifedean Ammous, autor do livro O Padrão Bitcoin, isso não acontece por acaso: o Bitcoin possui características históricas, econômicas e políticas que dificilmente poderão ser reproduzidas por uma moeda criada posteriormente.

Ammous constrói sua tese a partir da história do dinheiro. Ao longo dos séculos, diferentes bens foram utilizados como moeda, mas as sociedades tenderam a abandonar os mais fáceis de produzir em favor daqueles cuja oferta era mais difícil de aumentar. Foi assim que o ouro superou outros metais e se tornou o principal ativo monetário do mundo. Na visão do autor, o Bitcoin representa uma evolução desse processo, pois apresenta uma oferta máxima conhecida e resistente ao aumento arbitrário.

O grande feito do Bitcoin teria sido criar, pela primeira vez, uma escassez verdadeiramente digital. Antes dele, qualquer arquivo eletrônico podia ser copiado infinitamente, o que impedia sua utilização como dinheiro sem a presença de uma empresa, banco ou governo controlando os registros. O Bitcoin resolveu esse problema por meio de uma rede descentralizada, capaz de verificar a propriedade e impedir o gasto duplicado sem depender de uma autoridade central.

Alguém poderia argumentar que basta copiar o código do Bitcoin e criar outra criptomoeda com o mesmo limite de 21 milhões de unidades. Para Ammous, porém, isso não destrói a escassez do Bitcoin. A criação de outros metais não aumenta a quantidade de ouro existente, assim como o lançamento de milhares de altcoins não aumenta a quantidade de bitcoins. Cada moeda constitui uma rede diferente, com sua própria oferta, credibilidade, segurança e conjunto de participantes.

Outro obstáculo para uma eventual substituição é o poderoso efeito de rede do Bitcoin. Quanto maior o número de pessoas que utiliza e aceita uma moeda, maior tende a ser sua utilidade. Mais usuários produzem maior liquidez; maior liquidez atrai investidores e empresas; mais investimentos fortalecem a infraestrutura; e uma infraestrutura mais desenvolvida atrai novos usuários. Uma altcoin não precisaria apenas apresentar alguma vantagem técnica, mas superar todo esse ecossistema acumulado.

A origem do Bitcoin também ocupa um lugar importante na argumentação de Ammous. Quando Satoshi Nakamoto colocou o sistema em funcionamento, os bitcoins praticamente não possuíam valor comercial. Não houve venda inicial, empresa controladora ou grupo de investidores recebendo moedas antecipadamente. Depois de alguns anos, Satoshi desapareceu e deixou a rede funcionando sem uma liderança permanente. Atualmente, quando todos sabem que uma criptomoeda pode alcançar valor bilionário, seria quase impossível reproduzir essa origem espontânea e desinteressada.

A ausência de um controlador central torna a política monetária do Bitcoin especialmente confiável. Desenvolvedores podem propor alterações, mas não conseguem obrigar usuários, mineradores e operadores de nós a aceitá-las. Os mineradores precisam respeitar as regras reconhecidas pela rede para receber suas recompensas, enquanto os usuários possuem forte interesse em preservar as propriedades que dão valor às moedas que possuem. Desse equilíbrio entre grupos com interesses diferentes nasce a resistência do Bitcoin a mudanças arbitrárias.

Nas altcoins, segundo Ammous, normalmente existe uma fundação, empresa ou equipe de fundadores com influência muito maior sobre o funcionamento da rede. Essas organizações podem modificar a emissão das moedas, alterar o protocolo, substituir o mecanismo de consenso ou interferir nas transações. Mesmo quando uma altcoin promete uma oferta máxima, essa escassez pode depender da confiança nas pessoas responsáveis pelo projeto. No Bitcoin, a dificuldade de alterar as regras seria justamente a característica que torna sua política monetária mais confiável.

A segurança acumulada também representa uma barreira gigantesca. Quanto mais valioso o Bitcoin se torna, maior é o incentivo para investir em equipamentos e energia destinados à mineração, tornando um ataque à rede progressivamente mais caro. Ao mesmo tempo, cresce a infraestrutura formada por corretoras, carteiras, serviços de custódia, sistemas de pagamento e aplicações construídas sobre o protocolo. Uma nova criptomoeda começaria sem esse histórico, sem a mesma liquidez e com uma rede muito menos testada contra ataques e crises.

Por isso, na tese de Saifedean Ammous, não basta que uma altcoin seja mais rápida, barata ou tecnologicamente sofisticada para superar o Bitcoin. Ela precisaria reproduzir sua origem sem controlador, conquistar uma rede maior, alcançar segurança superior e demonstrar uma política monetária igualmente resistente a interferências — tudo isso enquanto o próprio Bitcoin continua evoluindo. Não é uma impossibilidade matemática, mas uma improbabilidade econômica crescente: quanto mais tempo o Bitcoin permanece funcionando, mais confiança, segurança e relevância acumula, tornando cada vez mais difícil o surgimento de um “novo Bitcoin”.